Dança entre a tensão, o sufoco e a agressividade do cotidiano

Por Amanda Queirós

Por mais que estejamos sentados e aparentemente imóveis durante o ato de ver dança, o fato é que, ao assistir a um espetáculo, também nós dançamos. A neurociência explica, mas obras como "Inoah", do Grupo de Rua, ajudam a comprovar a teoria de forma empírica.

 

Nos segundos que antecedem os aplausos finais, em meio à escuridão, o sonoro ofego dos bailarinos sintoniza com a contração dos músculos de quem está na plateia, em uma resposta imediata ao assustador vigor apresentado pelos dez artistas em cena.

 

Contribui para isso o fato de "Inoah" ser um trabalho costurado por certo clima de tensão, sublinhado pela paisagem sonora criada por Felipe Storino. Ela hipnotiza ao mesmo tempo em que elimina qualquer possibilidade de respiro. Faz isso por uma via completamente distinta das batidas esperadas para uma apresentação de hip hop – mas sabemos que o que Bruno Beltrão faz está longe de ser "só" isso.  

 

Não raro, o tipo de música tradicional para este gênero costuma esvaziar o que se vê ao colocar uma primazia da forma sobre os sentidos. A música de Storino sufoca por outro viés e com resultado exatamente oposto. O que quebra a linearidade do que se ouve, ao menos na porção inicial do trabalho, é justamente o movimento dos bailarinos, em uma escalada de gestos cada vez mais disruptivos.  

 

A sensação de asfixia se completa com o cenário, composto de três telas estreitas e retangulares que circundam o alto da caixa cênica. Elas funcionam como uma extensa claraboia por meio da qual é possível entrever ligeiros sinais da vida lá fora: o vento que bate nas folhas no topo de uma árvore, os fios de eletricidade que fazem zigue-zague sobre a rua, os pássaros que entrecortam o céu… As imagens projetadas simulam o ciclo de um dia, alternando manhã e noite – quando se soma às cenas a luz rodopiante de um farol. Fora isso, o palco está completamente nu e, não raro, sob penumbra.

 

A sensação é de que aqueles corpos existem dentro do isolamento de um enorme galpão (seria esta uma simulação da sede do grupo, no distrito de Inoah que dá título à obra?), e essa convivência acontece por meio de embates minuciosamente construídos.

 

De início, antes mesmo de as janelas serem "abertas", um trio surge em um prólogo tateando lentamente possibilidades de movimento que veremos em diferentes dinâmicas ao longo do trabalho. A fraca iluminação sugere, à primeira vista, um contraste no qual existem apenas preto e branco.

 

Com o início das projeções e a entrada de mais luz, vemos surgir cores nos figurinos de Marcelo Sommer - que brincam com a dualidade feminino/masculino ao se apresentarem como uma espécie de bermuda que é também saia. As individualidades de cada artista são, assim, reafirmadas visualmente para depois se revelarem na forma de cada um dançar.

 

Apesar de contar com muitos trechos em conjunto ou em diferentes formações numéricas, o que sobressai na coreografia são mesmo os duos. Há uma violência latente nesses encontros a dois, e é preciso embarcar na jornada proposta por Beltrão e seus bailarinos para enxergar as sutilezas a partir das quais se constroem essas relações.

 

À primeira vista, os artistas operam como obstáculos para os outros, interrompendo seus caminhos de maneira abrupta e em uma dinâmica ao mesmo tempo ágil e pesada que sugere agressividade. Essa superioridade de um corpo sobre o outro, exercida por meio de esbarrões, poderia implicar um bloqueio ou mesmo uma instabilidade no interlocutor, mas, na realidade, a crise instalada ali se transforma em possibilidade: quando um deles se vê impedido de seguir em frente de algum modo, precisa buscar novas alternativas de movimento, sendo instigado a percorrer uma trajetória corporal que não lhe pareceria óbvia de imediato.  

 

Isso fica mais claro quando os bailarinos abandonam o contato físico dessas trombadas e passam a dançar em duos sem contato direto, mas ainda conversando um com o outro, em um esquema de pergunta e resposta do qual saem surpreendentes cenas nas quais os eles "quicam" com as costas tal qual bolas de basquete.  

 

Bruno Beltrão é um coreógrafo de trabalhos declaradamente abstratos, mas com um talento raro para transformar movimento em discurso sobre seu lugar no mundo, sua própria arte e o tempo em que vivemos. Sufoco, agressividade, polaridade, tensão, contexto de crise, falta de diálogo, resiliência... Tudo isso está impresso em nossos corpos, nos dias de hoje, de alguma maneira. Nos virtuosos corpos dos bailarinos do Grupo de Rua, esses sentidos são organizados e traduzidos com a complexidade que merecem, sublinhando que o ato de conversar tem sido, sim, cada vez mais difícil e cansativo, mas ainda é possível - e é isso o que pode nos levar adiante.

 

Quando a luz apaga e a trilha se encerra - e ouvimos apenas a pesada respiração dos garotos -, a tensão que “Inoah” injeta se dilui em certo sentimento de alívio. “Ufa, eles sobreviveram!”. E, se eles conseguiram isso no palco, talvez, com algum esforço e dedicação, nós também consigamos fazê-lo fora dele.

Fotos: Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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