Força do corpo se dilui em meio a cenografia

Por Amanda Queirós

O título de "A Máquina da Amnésia" intriga. Afinal, o que seria a tal da máquina proposta pelo coreógrafo Fernando Martins?

A cena inicial do espetáculo da Plataforma Shop Sui dá a entender que ela de fato foi construída e está suspensa no meio do palco. A ação começa justamente quando Fernando coloca este objeto retangular, feito de tubos de luz, para "funcionar", oscilando de um lado para o outro, como um tique-taque de um relógio que marca o tempo enquanto enche a caixa preta de fumaça. Está armado o cenário onírico no qual se desenrola a obra, inicialmente, com um solo do coreógrafo.   

 

É um enorme prazer ver um bailarino como ele em cena, porque fica evidente ali um tipo de movimento com sotaque especial. Seus gestos conduzem a si mesmos, descobrindo caminhos singulares entre quebras repentinas de fluxo. Por vezes parece um corpo em conflito consigo mesmo, no qual braços e pernas não conversam com o tronco, em uma estranha combinação que magnetiza o olhar.

 

Ele sai de cena e dá espaço a quatro bailarinos com figurinos em tons de bege e roxo, iluminados por azul. A música de fundo - feita a partir de sintetizadores - evoca uma aura futurista à la Jean Michel Jarre, e esses elementos fortalecem a ideia de que o que se constrói ali está no campo do imaginário.   

 

De pé, o conjunto começa a balançar os braços para um lado e para o outro em uníssono. A alta velocidade do movimento cria quase um transe, que se desestabiliza em pequenas variações engatilhadas por cada um deles, como se a constância daquilo lhes escapasse de alguma forma. O nível de repetição colocado faz com que o corpo se deixe levar - e aí fica mais claro ao que a tal máquina da amnésia se refere.

 

Diferente do que acontece com um equipamento mecânico, no qual a inércia significa um moto perpétuo, no corpo humano a continuidade de movimento nunca é igual. Seu fluxo é orgânico e, por isso, se transforma e é sujeito a variações. No corpo, o fazer igual é sempre diferente, e isso implica um nível de esquecimento muitas vezes inconsciente dos caminhos já traçados por ele mesmo.

 

A proposta deriva da linguagem coreográfica desenvolvida por Fernando, batizada de Brain Diving, que, no fundo, é um convite a um mergulho ensimesmado. A ideia é que o bailarino se conheça em suas possibilidades e vícios gestuais para depois se abandonar e ver o que surge a partir dali. A máquina da amnésia está, portanto, no próprio corpo de cada um.

 

A força desse discurso, no entanto, é abalada pelo peso excessivo da cenografia. Os vários acessórios dispostos no palco acabam desviando o foco de atenção em vez de endossar o que se quer dizer. A conexão deles com o material dançado não é imediata, e a busca pelo estabelecimento de relações entre esses elementos surge como uma distração.

Outro ponto dissonante é a figura de Fernando. A qualidade de sua movimentação se destaca em relação à do resto do elenco. Isso não significa que os outros não sejam excelentes bailarinos. A impressão é apenas de que eles ainda não se apropriaram da pesquisa como o criador dela. Talvez, por isso, o coreógrafo se mantém na cena como uma espécie de guia. Após o solo de abertura, ele retorna ao palco, mas dança pouco. Sua função primordial é a de manipular elementos e passear entre os intérpretes, norteando-os. Essa sensação é reforçada pelo fato de o figurino dele ser o único que não acompanha a unidade visual dos demais.

 

Em mais de um momento, os bailarinos são “tangidos” pelo toque do berrante do coreógrafo, e a cena faz paralelo com um workshop no qual o professor aponta aos alunos que comandos seguir. Vê-los sendo tão diretamente conduzidos no Brain Diving despotencializa o caráter de emergência de individualidades sugerido pelo processo.

“A Máquina da Amnésia” mostra que Fernando Martins desenvolveu uma pesquisa de movimento autoral e muito especial. Falta apenas acreditar mais nela cenicamente a partir de sua matriz: o próprio corpo.

Fotos: Sílvia Machado/Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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