Um mergulho no estranhamento

Por Flávia Fontes Oliveira*,

convidada do CRITICATIVIDADE 

“A Máquina de Amnésia”, espetáculo de Fernando Martins para o projeto que dirige, a Plataforma Shop Sui, é um mergulho no estranhamento. Isso pode soar um problema em um tempo de facilidades. Mas estranhar exige novos olhos, e isso o trabalho faz com habilidade ao propor uma renovada forma de movimento, mesmo que nem sempre a conversa com o tema seja clara.

Ex-bailarino do Balé da Cidade de São Paulo, da Quasar Cia. de Dança e da companhia holandesa nnd/Galili Dance, sob a direção de Itzik Galili, Martins se interessou pela criação ainda nesses grupos. Mas foi na Holanda, em 2007, que participou da fundação, ao lado de outros cinco coreógrafos, da Random Collision, uma organização focada em dar suporte a jovens coreógrafos em projetos de dança contemporânea.

 

Nesse momento, debruçou-se sobre sua pesquisa, chamada Brain Diving, que se tornou a técnica usada em seus trabalhos. Com ela, propõe uma ruptura sobre o mecanismo de repetição de pensamentos e de ações durante o percurso do movimento, como costuma dizer.

 

Criador e intérprete, Fernando é, a um só tempo, seu maior entendedor e melhor

representante. Pois vem de seu deslocamento a sensação de um caminho novo, sem vícios de linguagens frequentes na dança contemporânea, sem recursos facilitadores para seu movimento. É aqui o primeiro encontro com o estranhamento, pois nos coloca diante de algo pouco familiar.

 

Na técnica, o diretor procura esvaziar o intérprete das faculdades sedimentadas e de fácil entendimento. De modo consciente instiga cada um a procurar uma forma pessoal de mover-se. No entanto, há aparentemente uma sugestão de outros recursos, sem que isso prejudique o caminho: por exemplo, as mãos parecem despertar impulsos para o deslocamento e o corpo recebe essa informação, controlando agilidade e lentidão (ou ainda o corpo, que raras vezes se mantém ereto), e garantem certa leveza para quem se movimenta.

 

“A Máquina de Amnésia” evoca esse estado da memória como ponto de partida e de chegada para a criação e lança uma questão: “o que você precisa esquecer para não se esquecer de ti?”.

O espetáculo começa com quatro bailarinos em cena (são cinco ao todo), pouca

iluminação, e, no alto, duas rodas penduradas, ligadas uma à outra, que, ao serem acionadas, giram e indicam o início, “a máquina” foi disparada, com o próprio diretor em seu solo. Primeiro ponto alto.

Há ainda outras cenas de impacto, um conjunto entre três bailarinos, com destaque para Dalila Leon, reforçando esse modo de entender a dança, ou ainda a presença de Vitor Rosa, também potente em seu caminho de interpretação. Por outro lado, talvez o espetáculo ganhasse ainda mais se Simone Camargo explorasse essa possibilidade de dança, por exemplo.

Em outros momentos, essa força se perde em grandes espaços de tempo, como se a amnésia deixasse tudo em branco. Mesmo proposital, um estranhamento forçado, a linha da dramaturgia esgarça a dinâmica do espetáculo.

 

No mesmo sentido, os elementos cênicos transitam evocando memórias, sem uma conexão direta com a cena. O berrante da infância de Martins, usado no interior do país para levar boiadas, está de volta, como já aconteceu em “Meu Doce Estimado”, quando também entrava em cena e o tocava. No fim, Paula Sousa e Dalila equilibram-se em dois grandes bambus, com lanças nas extremidades.

Se de um lado isso soa um propósito de pescar sentidos de pequenas recordações, por outro, perde-se em algo que vinha valioso, o movimento e a relação entre os bailarinos.

 

Essa construção de sentido (ou falta dele) talvez condensado seja mais instigante para quem assiste. Ainda assim, Fernando Martins e sua Plataforma Shop Sui apresentam um frescor da pesquisa continuada.

* Flávia Fontes Oliveira é jornalista e roteirista. Dirige a publicação "Revista de Dança" (www.revistadedanca.com.br) e é autora da biografia "Iracity Cardoso, tempo da dança" (www.iracitycardoso.com.br)

Fotos: Sílvia Machado/Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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