Da dificuldade de fazer do apagamento algo memorável

Por Henrique Rochelle

Como romper sistemas de repetição através de pequenos (e programados) esquecimentos? Essa é a proposta sobre a qual se debruçaram Fernando Martins e a Plataforma Shop Sui, na elaboração de “A Máquina da Amnésia”, contemplado com o Programa de Fomento à Dança da Cidade de São Paulo, e que fez temporada em quatro espaços da capital.

 

Em cena, um ambiente onírico, tomado por fumaça que invade a platéia e dominado pela presença impactante de um aparelho, que supomos ser a máquina do título, suspenso ao fundo do palco. Em funcionamento, ela balança, acesa e piscando, e nos perguntamos o que ela é capaz de fazer.

 

Para transmitir a ideia de uma oposição entre o indivíduo e o sistema, a coreografia usa movimentos repetitivos, em estruturas de pegar, de segurar, de colocar, de mudar de lugar, que criam uma impressão de maquinário, de processo: um sistema em operação, dominado pela repetição e constância, da qual se sobressaem poucos momentos de individualidade, de especificidade.

 

Só nesses breves momentos podemos ter algum acesso aos bailarinos enquanto indivíduos, o todo sendo dominado por contínuos trabalhos com a segmentação corporal, e referência às danças urbanas, em isolamentos, locking, e animation.

 

O caráter processual, cíclico, revolvente, também se marca por entradas e saídas em cena, e por dinâmicas que fazem uso dos figurinos de João Pimenta, que se acumulam sobre as costas de um, se destacam pelo contraste colorido (alguns roxos, contra a aparência de preto e metálico que domina a cena), e se apagam e promovem apagamento, quando são removidos dos corpos, que, sem eles, se neutralizam, voltam (ou vão) para um denominador (talvez) comum.

 

É possível esquecer, é possível apagar — é essa a impressão que a obra deixa. Mas, o que é que se deseja apagar, não é possível saber. Como em muitas das propostas que trabalham formas ou reflexões de desconstrução, a dificuldade de entendimento está em compreender quais são os padrões estabelecidos que se questionam e que se apagam — nesse caso, para além do movimento repetitivo, que pode ser uma estrutura, uma forma, mas não é necessariamente um conteúdo. Para além disso, qual é o significado de se apagar algo que não sabemos o que seja?

 

Existe perda se aquilo que é perdido não for reconhecido? Dado momento, um bailarino volta à cena vestido com uma capa e carregando um berrante que ele toca “para uma bailarina” como se chamasse algo, nela ou para ela. Mas o que ele chama? O berrante se acumula na cena, também suspenso, como a máquina, como duas bolas transparentes. Pelo chão, se espalha uma pilha de cascalho branco, empurrada por um dos intérpretes, criando um gradiente de concentração e dispersão.

 

Ali que vemos tomarem formato as memórias. Concentradas e confusas num núcleo, e depois se espalhando pelo espaço, entre o milimetricamente preciso e o completamente aleatório — características que andam juntas nas estruturas orgânicas. Temos então dinâmicas de esquecimento e de diálogo com a lembrança, mas sem caracterizações de seus possíveis valores, ou do apreço que tenham. Estamos, de certa forma, dentro da máquina, e vendo a sua operação. Mas ela não funciona conosco. Não é o público que se esquece.

 

Também não parecem ser os bailarinos a esquecer. Talvez pelo longo trabalho desse processo criativo de buscar esquecimentos, os corpos que vemos já estão marcados mais pelos esquecimentos do que pelas presenças. E, nesse sentido, eles são compreendidos como já tendo passado pela máquina, não como se nela estivessem.

 

Assim, “A Máquina da Amnésia” tem sucesso no trabalho com o esquecimento, mas tem dificuldade com criar valor para esse apagamento, porque não oferece ao público percepções do que foi perdido. Risco comum na pesquisa em arte, se faz ainda mais presente quando o processo criativo e o processo de pesquisa se identificam e se misturam, casos em que são borradas as fronteiras entre a concepção do material, e a preparação desse material para ser apresentado ao público. Nesse caso, o verdadeiro desenvolvimento da obra é seu processo criativo, ao qual não temos acesso, e não a apresentação.

 

De certa forma, encontramos aqui as conclusões de um projeto de pesquisa que parece ter sido vigoroso. Porém, as conclusões são que o apagamento é possível, e o resultado que nos chega fica, em meio aos artifícios apresentados, um tanto quanto apagado.

Fotos: Sílvia Machado/Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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