Na mira e para todo tipo de olhar

Por Vanessa Hassegawa,

convidada do Criticatividade*

De carne e osso ou sob as lentes de VR, a São Paulo Cia de Dança leva à cena um espetáculo que se adapta a todos os palcos. Nada pode ser mais democrático do que permitir que a dança seja acessível a todos. Dançar, sem dúvida, ainda é a manifestação mais generosa da humanidade. Neste caso, "Mira", espetáculo criado pela São Paulo Companhia de Dança, dirigida por Inês Bogéa e Luciano Cury, com coreografia de Milton Coatti (atenção a este nome), surpreende em primeira mão. "Mira" literalmente convida a plateia a assistir ao espetáculo de qualquer jeito: seja num hall de um museu ou na palma da mão. 

 

"Mira" é uma das criações que celebram os dez anos de atuação da companhia de dança de repertório que tem a formação de público como norteador de seus trabalhos. O nome do espetáculo é inspirado na estrela Mira, uma das mais brilhantes e visíveis no hemisfério sul e que muda de aparência a cada ciclo. Ponto de vista significativo, já que se trata de um espetáculo tão mambembe quanto a própria estrela.

 

Em uma tarde quente da primavera de outubro, "Mira" ocupou o octógono de uma das edificações mais bonitas da cidade, a Pinacoteca do Estado. Antes que os bailarinos entrassem em cena, Inês Bogéa tomou o microfone nas mãos e fez uma breve introdução sobre o que “viria por aí”. Explicou àquela platéia, possivelmente habitué de museus, que assistiria a um espetáculo de dança contemporânea dentro de poucos minutos e, ainda, poderia viver três experiências diferentes: assistir no entorno do palco arena, interagir com a coreografia (bailarinos-voluntários) e, ao final, poderia vestir os óculos de Realidade Virtual e assistir ao mesmo espetáculo sob a perspectiva 360 graus. 

 

Esse zelo com seu público é sempre uma característica que a SPCD tem e é absolutamente admirável. Certamente é um dos raros grupos que estendem a mão à sua plateia e permitem que a experiência com a dança seja menos inatingível a cada espetáculo novo.

 

E assim, "Mira" entrou em cena em um curto tempo. Sob a orientação de Coatti, os bailarinos-voluntários acompanharam os movimentos sinuosos, moduláveis às sensações que aquele espaço oferecia. Por mais que tivessem interferências naturais do público observador, como vozes, cliques de smartphones, choros de criança, gargalhadas, havia a espontaneidade genial de se estar em dança fora de um teatro tradicional. 

 

Ao final, a plateia era convidada a vestir os óculos de VR e ir para o meio da cena sem os bailarinos de carne e osso; a experiência ali era dançar ou assistir ao mesmo espetáculo capturado meses antes na Oca. 

 

Sob essa perspectiva, a sensação é outra, não há cheiro, o suor não pode ser visualizado, não há rajadas de corpos que se entrecortam, mas a fantasia de se estar em cena ganha uma amplitude única e surpreendente. 

 

Assim como Douglas Rosenberg, pesquisador de dança e cinema, diz: "uma das características mais reconhecíveis da dança para a câmera é a tentativa de imortalizar momentos efêmeros, escritos por corpos que dançam", essa é fundamentalmente a ideia da dança contemporânea digital, a dança para a tela. 

 

"Mira" merece ser visto pela tela que for possível e expandir fronteiras. A mágica da dança feita para a tela é a possibilidade de ser levada para outras partes do mundo sem perder a sua essência, sem que perca essencialmente a alma, e melhor: seu público online pode dar share, fazer uma chuva de likes, fazer download e ainda comments compartilhando outros trabalhos que muitas vezes estão recolhidos fora do eixo Sudeste e Sul brasileiro. 

 

Vale a pena mirar a dança brasileira online, que tem voz própria e pode ganhar palcos sem território, sem limites. Fica esse legado de uma obra como a da SPCD para os artistas das cênicas: dance, filme-se e compartilhe. 

* Vanessa Hassegawa é jornalista, artista da videodança e curadora da mostra Prosa, Vídeo e Dança. 

Fotos: Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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