Que saudade, Quasar!

Por Amanda Queirós

Há muitos jeitos de falar de “O Que Ainda Guardo”. É possível abordar o trabalho do ponto de vista da memória que se atualiza quando posta em cena, da insistência de fazer a Quasar Cia de Dança continuar existindo, da evolução da assinatura coreográfica de Henrique Rodovalho ou do afeto de reencontrar no palco algo que nunca deveria ter saído dele. O que não dá é falar dessa criação de forma fria, buscando apartar todas essas referências em busca de uma avaliação supostamente isenta.

 

Talvez isso se dê porque Rodovalho inventa dança de modo caloroso. Mesmo suas obras mais cerebrais se traduzem no corpo sob um viés passional e sabem se comunicar de forma muito sincera, ainda que não óbvia.

 

A tal “avaliação isenta” de “O Que Ainda Guardo” poderia apontar, de forma negativa, que vemos aqui mais do mesmo em termo de coreografia, com quadros reciclados de outras obras da companhia. Poderia apontar também que o elenco jovem, reunido exclusivamente para essa montagem, é esforçado e tecnicamente potente, mas precisa de muito ensaio para alcançar as qualidades de movimento e a precisão que a linguagem fragmentada de Rodovalho exige.

 

Acontece que estamos falando aqui de Bossa Nova, do calor carioca, de paixões à beira do mar, de energia juvenil e de uma ingenuidade que empurra para a frente sem olhar para trás. É potência de vida, e partilhá-la, mesmo na divisão palco/plateia, devolve um sorriso cada vez mais raro nesses tempos brutos.

 

Rodovalho faz nessa obra uma espécie de pout-pourri dos caminhos percorridos ao longo dos 30 anos da Quasar, acrescentando mais uma camada de interpretação para quem conhece a trajetória da companhia, tragado para um jogo de tentar descobrir a conexão entre cada cena e os trabalhos de seu repertório.

 

Essa escolha poderia tornar “O Que Ainda Guardo” uma mera colagem de “melhores momentos”, mas uma das coisas que caracteriza um bom coreógrafo é justamente a habilidade de remixar materiais em busca de novos sentidos.

 

Neste caso, tudo é costurado de forma harmônica, tendo a leveza e o bom humor como condutores. Rodovalho brinca com a estrutura da música “O Pato”, em um quarteto que dialoga ao mesmo tempo com a dinâmica da melodia e sua letra. Brinca também com o status da Bossa Nova como “música de elevador”, com o lado cômico dos encontros e desencontros amorosos em duos bem trabalhados e o ridículo dos padrões de macheza em uma cena à la Esther Williams.

 

Com isso, a empatia está estabelecida entre artista e público, que mal percebe quando o tom quase pueril do que se viu até então dá lugar a uma reflexão mais séria sobre os impasses do presente e as dificuldades de ir adiante, com os bailarinos encarando o público enquanto “Águas de Março” sinaliza que nossa realidade “É pau, é pedra, é o fim do caminho”... É nesse lugar que a própria Quasar se encontra enquanto companhia, em compasso de espera do seu próprio futuro, vivendo o hoje enquanto pode, sin perder la ternura jamás.


O que Rodovalho defende aqui é o joie de vivre como modo de resistir, apesar dos pesares. E, apesar de não revelar nada de realmente de muito inédito, talvez o papel de “O Que Ainda Guardo” seja mesmo o de reafirmar a existência de uma linguagem que só ele pode usar, e que ainda tem muito a dizer. Reencontrá-la ainda pulsante, quatro anos depois da última criação da companhia é um prazer, e é impossível não dizer: que saudade, Quasar!

Fotos: Marcus Camargo e João Gabriel Hidalgo/Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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