O entendimento vem pelo avesso

Por Rafael Ventuna *,
convidado do CRITICATIVIDADE

Este texto se ocupa de uma camada invisível nos palcos. Mais do que oferecer um viés da percepção estética sobre “O que ainda guardo”, da Quasar Cia. de Dança, faz-se necessária a compreensão do momento histórico que sua estreia no Auditório Ibirapuera representa. Histórico não apenas para a companhia goiana, mas para toda a classe artística.

 

Em 2016, após o encerramento do contrato de manutenção patrocinado pela Petrobras, a Quasar - acuada pela crise econômica e política que assola o Brasil - anunciou a paralisação de suas atividades. Um soco na boca do estômago de seus admiradores. Um golpe fulminante que levou a nocaute a produtora Vera Bicalho, o coreógrafo Henrique Rodovalho e a companhia.

 

O episódio marcou:

- a demissão em massa da equipe artística, técnica e administrativa e encerramento de parcerias;

- a desativação do Espaço Quasar, que abrigava a companhia principal e a Quasar Jovem, cenários, acervo multimídia, equipamentos, além de ser um local de referência em Goiânia para a realização de cursos, aulas e atividades ligadas à dança;

- a grave ameaça que poderia colocar fim a três décadas de trabalho e ao projeto (quase anarquista) de criação de uma companhia de dança profissional e independente;

- a promessa ainda não cumprida pelo Governo do Estado de Goiás de lançar o edital para seleção da organização social que poderá fazer a gestão da companhia de dança estadual.

 

Depois de um xeque-mate destes, só restou à Quasar jogar um novo jogo, uma nova partida. O intervalo também foi útil para uma avaliação sobre o que deu certo e errado ao longo da existência da companhia instituída em 1988. E definir novos rumos a uma diversificação das fontes patrocinadoras e à aproximação de parcerias mais dinâmicas com a iniciativa privada.

 

“O que ainda guardo” contou com três meses de produção e processo criativo. Uma infraestrutura mínima para ensaios garantiu que, sob encomenda da joalheria Vivara, uma comemoração dos 60 anos da bossa nova ganhasse uma versão coreografada.

 

É bem verdade que, para conhecedores da excelência e do selo Quasar, a retomada traz uma “plenitude incompleta”. Que chega aos palcos pelas vias da suavidade e da sutileza. Embora ainda muito combalida, a companhia opta em religar as engrenagens uma por vez.

 

Apesar da incoerência com os tumultuados tempos que vivemos, a Quasar prefere passar uma mensagem leve e acalentadora. Como se criasse uma bolha energética que a protege das vibrações ruins enquanto se revigora. Estão seguros de que a revolta, a denúncia e a tristeza já tiveram lugar.

 

A escolha do título é muito feliz. E comporta profundas interpretações. Além de resgatar a relação de Rodovalho com o Rio de Janeiro, cidade homenageada na peça e onde o coreógrafo viveu por um período antes de regressar à capital goiana em 1988 e fundar a companhia com Vera.

 

A importância da Quasar é bem maior que suas obras. A companhia é um marco na história da arte em Goiás e no Brasil. Foi pioneira na dança contemporânea, atuando em uma cidade fora do eixo Rio-São Paulo. Ganhou projeção nacional e internacional. Formou público, bailarinos, cenotécnicos, produtores. Acolheu pesquisas acadêmicas. Criou uma identidade própria com seu vocabulário coreográfico. Traduziu a urbanidade.

 

Agora, a esta importância soma-se o aprendizado no absoluto estilo lei de Murphy. A companhia que atravessou inúmeros momentos difíceis não pode comparar quaisquer deles a sua paralisação total. No entanto, prova que nenhum cenário sócio-político-econômico é tão ruim que possa devastar sua trajetória.

 

As palavras de ordem desta nova fase vêm todas acompanhadas do prefixo “re”. Reinventar, resistir, reconstruir, retomar, retornar. A maturidade parece ser este espaço para “refazer”, “reencontrar”, “revisitar”. E ressignificar tudo o que ainda está guardado.

* Rafael Ventuna é jornalista cultural e crítico de arte.

Fotos: Marcus Camargo e João Gabriel Hidalgo/Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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