Peter Pan: para subir nas costas do vento

Por Marcela Benvegnu,

convidado do CRITICATIVIDADE *

Nos primeiros acordes do musical "Peter Pan", a plateia do Teatro Alfa silencia, pelo impacto do som da orquestra regida pelo competente maestro Carlos Bauzys – veterano de musicais como "Cantando na Chuva" e "Homem de La Mancha". A cortina se abre e por meio de uma projeção somos transportados a Londres, no início do século 20. Pela boca de cena adentramos no quarto da família Darling. É ali, naquele espaço em tons de azul, com três camas, uma lareira e uma grande janela ao fundo, no segundo andar de um prédio, que iremos encontrar Peter Pan e pegar uma carona para a Terra do Nunca.

Escrita pelo escocês J. M. Barrie (1860-1937), em 1904, "As Aventuras de Peter Pan" se transformou em clássico da Disney em 1953, e ganhou versão para musical na Broadway em 1954. Só agora, 64 anos depois, que Peter Pan ganha os palcos brasileiros em uma grande montagem de Renata Borges, da Touché Entretenimento.

 

Se na versão de 1954 tínhamos direção, coreografia e adaptação do genial Jerome Robbins (1918-1998), na versão brasileira a encenação e direção de arte ficaram a cargo de José Possi Neto ("Emoções Baratas", "Raia 30", "Cabaret"), um diretor acostumado a olhar para a dança de um modo mais generoso - lembrando que ele foi diretor do Balé da Cidade de São Paulo (1997-99) e tem em seu histórico diversos espetáculos do gênero. A direção de movimento e coreografia são assinadas por Alonso Barros. Campineiro-Austríaco, Barros está há mais de 20 anos na Europa é um dos "queridinhos" do musical brasileiro, ao lado de Katia Barros e Fernanda Chamma, que estão à frente das maiores e mais importantes montagens do cenário atual. Por aqui ele assinou montagens como "Elis – A Musical", "Nine", "A Noviça Rebelde" – que está em cartaz no Teatro Renault, entre outras.

A versão brasileira tem singularidades. Peter Pan é interpretado por um homem – nas outras versões mulheres eram as protagonistas, com exceção de Jack Noseworthy. A bola da vez é Mateus Ribeiro, um jovem e inteligente intérprete que dá vida a um Peter que se assemelha a todos nós. Ele é jovial, às vezes criança, tem sonhos, medos, birras. Sua performance claramente bem executada, atrela números de acrobacias aéreas, sapateado, jazz e dança contemporânea. Mateus faz com que o espectador fique ligado no seu texto, corpo e voz esperando para ver quando ele poderá voar sobre as cabeças da plateia ou dar cambalhotas pelo ar, as quais ele faz muito bem. Seu cover, Diego Martins – que não é mencionado no programa como substituto de Peter Pan, somente como Menino Perdido – ao passo que fizer mais espetáculos, estará mais confortável na pele do menino.  

Outra singularidade é que Sininho – conhecida por muitos como Tinker Bell – bem projetada em uma casinha de madeira ou dentro de uma jarra de vidro, ganha forma física no voo de Mariana Amaral. É uma aparição rápida e feita com autorização da Music Theatre Internacional (MIT) e apesar de ser um ineditismo, não é um ponto determinante. O figurino da personagem, um vestido pink - nas primeiras semanas de espetáculo – agora ganha uma espécie de tutu em tons claros. Sininho – assim como as fantasias que estão para vender na lojinha no Teatro – é, no nosso imaginário, verde. E como perguntou uma criança para sua mãe: “Mas ela não é verde?”. Não, querida, aqui ela não é.

 

O conto “de fadas” é muito bem roteirizado nas quase três horas de duração do espetáculo.  O texto tem um “q” de humor muito bem adaptado por Bianca Tadini e Luciano Andrey, e o mais importante: não apresenta piadas excessivas ou quebras de texto para expor um patrocinador. Musical brasileiro sem redenção.

Logo nas primeiras cenas, Naná (Gustavo Della), uma cachorra gigante que nos lembra a Priscilla da extinta TV Colosso, que é a babá das crianças da casa, arranca gargalhadas da plateia por ser a cópia fiel do que um cachorro faz dentro de casa. Della se diverte no papel e diverte quem vê. Thais Piza, a ajudante do lar, pensa alto o que todos ali tem na cabeça e com pouco também entretêm.  No quarto, nos deparamos pela primeira vez com a família Darling. As crianças John (Gabriel Cordeiro) e Michel (Murilo Martins) são excelentes, seguram o texto, a dança e a dramaturgia do corpo. E claro que Wendy (Bianca Tadini), George (Daniel Boaventura) e Mary (Maria Netto), são talentos a parte.

Bianca ("Wicked", "My Fair Lady", "Master Class") tem uma voz de mel. Sua Wendy é doce, tem um olhar sincero cheio de segundas intenções, mas quando solta a voz... não dá para entender como Peter não cede aos seus encantos. Boaventura ("A Bela e a Fera", "A Família Addams", "Chicago") se divide em dois personagens - como na maioria das montagens deste musical -, além de um cômico George (Sr. Darling) é ele quem dá voz ao famoso Capitão Gancho. Muito à vontade em ambos personagens, seu Gancho é divertido, irônico e foge do estereótipo daqueles personagens que dão medo nas crianças. É dele também a coprodução do espetáculo.  

A luz de Wagner Freire e Possi Netto em tons de azul, verde e roxo dialoga com as projeções de cena de um modo especial. A caravela do Capitão Gancho no segundo ato, toma todo palco do Alfa -  que completa 20 anos de existência – e é de uma grandiosidade que nos suspende por alguns segundos da cadeira. Com três palcos independentes e complementares nos faz prestar ainda mais atenção na cenografia de Renato Theobaldo. Os figurinos de Thanara Shonardie têm detalhes interessantes, que fazem diferença na cena, desde um cinto, a textura das casacas, ou a caveira bordada atrás do colete do Capitão Gancho. Eles brilham e se completam.

 

Claro que o ponto ápice são voos. Orquestrados pela ZFX Flying Effects, transportam a plateia, sobretudo, as crianças, para um universo mágico. Quando o gelo seco invade o palco e a projeção vira céu, se tem a impressão de que os atores estão realmente voando. Na montagem, quatro deles voam ao mesmo tempo, feito antes não repetido nos Peter Pan’s. Os cabos, às vezes imperceptíveis, operados por seis técnicos manualmente, dançam. Nos voos, eles realmente “sobem nas costas do vento”, como diz Peter.

Embora se veja movimento de corpo em toda a estrutura da montagem, as coreografias são colocadas em lugares corretos, sem excessos. Na versão de Barros, movimentações em linha reta, que às vezes correm o risco de serem "chapadas", são muito bem trabalhadas. Interrompida por aplausos a coreografia chave é Uga-Uga. Totalmente recriada pelo coreógrafo, ela revela um elenco de 16 bailarinos – índios – bem afinados em um maculelê ritmado. A partitura original é refeita por Bauzys e a plateia se reconhece nessa brasilidade. E embora sapatear com as mãos não seja uma novidade e bater tampas de panela a la Stomp também não, é preciso dizer que em dança não é preciso inovar sempre. É preciso fazer bem-feito. E isso o elenco de 32 artistas faz.

Vale prestar atenção em Carol Botelho, que interpreta Tiger Lily - índia papel chave na Terra do Nunca – detentora de uma técnica de dança particular. Ela é precisa, determinada, forte, ousada e quebra a quarta parede pelo movimento. E lógico, que não se pode sair do teatro sem aplaudir Pedro Navarro (Smee). A dramaturgia do seu corpo é tão bem construída que a gente quase pede mais. Com ele tudo está no lugar certo, sem tirar nem por. E o inconsciente diz: Mais Smee, mais Smee!

E se é para ter um excesso (só um) talvez seja um samba colocado ao final de uma Tarantela. Essa parte Robbins não chegou a conhecer. Robbins, foi um icônico coreógrafo americano, que mudou a cena da dança no mundo. Além de ter sido diretor artístico do New York City Ballet – cuja companhia mantém suas obras em cena até hoje – criou peças que fazem parte do repertório mundial do teatro musical, como "West Site Story", "On the Town", "Fancy Free", "Gypsy", entre outras. "Peter Pan" faz parte das sua leva de obras mais cômicas que dialogam com a dramaturgia e tem uma movimentação de jazz tradicional. Quando ele resolveu dirigir, adaptar e coreografar "Peter Pan", se juntou a Leonard Bernstein (1918-1990) -  que abandonou o projeto depois de compor somente 5 músicas - e posteriormente a Morris "Moose" Charlap (música) e Carolyn Leigh (letras), além de contribuições adicionais de Jule Styne, Betty Comden e Adolph Green.

Interessante é ver Peter Pan depois de ter assistido "Finding Neverland", musical genialmente coreografado por Mia Michels para a Broadway, em 2015, inspirado no livro de mesmo nome, que conta como a história de Peter Pan foi escrita. Uma linda ponte de magia para esse universo, no qual cada pó de pirlimpimpim tem sentido.

 

Diferentemente de obras nas quais a dança é a narradora como "Newsies", "Fame" ou "Billy Elliot", "Peter Pan" é um musical no qual a imaginação e a liberdade são protagonistas. Um convite à Terra do Nunca na qual se chega seguindo as estrelas douradas e que por três horas - se nos permitirmos - podemos ser mais leves que o ar. Vale uma boa carona.

* Marcela Benvegnu é jornalista e pesquisadora de dança. Master em Mídia, Comunicação e Negócios pela University of California (USA, 2017), é mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica, pós-graduada em Estudos Contemporâneos em Dança pela Universidade Federal da Bahia e tem cursos de especialização em Arts Management e Dança Educação pela New York University. Foi coordenadora de Educativo e Comunicação (2009-2017) e de Registro e Memória da Dança (2012-2014) da São Paulo Companhia de Dança e é codiretora do Congresso Internacional de Jazz Dance no Brasil.  Atualmente dirige a Marcela Benvegnu – Consultoria e Imagem para a Dança. | www.marcelabenvegnu.com.br

Fotos: Luiz Henrique Leão e Leo Aversa/ Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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