Balé da Cidade busca novos ares sem medo de errar

Por Amanda Queirós

O percurso traçado por Ismael Ivo ao longo de seus 62 anos é um indício do que ele realmente é: um desses artistas que sabe como poucos o que faz com seu trabalho. Sua obra de estreia à frente da direção artística do Balé da Cidade de São Paulo traça um ótimo exemplo disso.


Apresentada em março no Theatro Municipal, "Risco" é, antes de tudo, uma carta de apresentação e um sinal claro de que, para esta companhia, como cantaria Dylan, "the times they are a-changin'". Contraditoriamente, no entanto, essa é uma mudança de paradigmas que vê o presente com olhos de passado.


Ivo carrega nas veias um tipo de saber erudito muito moderno, aprendido na carne, que busca nos cânones o impulso da reinvenção.


Seu maior ativo aqui - e possivelmente seu principal legado ao grupo durante os quatro anos que virão - é a defesa de um corpo que, mais do que agente provocador de certa eficiência estética, é um núcleo de entendimento criativo do mundo.


"Risco" se propõe a usar a dança para apresentar uma tradução possível para o caos de São Paulo. É, portanto, uma obra cheia de excessos sobre uma metrópole excessiva por natureza.
 

Tudo o que marcou o reencontro de Ivo com sua cidade natal, após décadas de autoexílio artístico no exterior, está ali: os amontoados de moradores de rua, a epidemia do crack, os debates de gênero, o grafite enquanto grito de resistência.
Essas são questões presentes na pauta do noticiário e que inspiram vários grupos independentes atuantes na cidade, mas que estavam há tempos longe do Balé e do largo alcance de suas temporadas no Theatro Municipal. 

 

São também questões que raramente ganham na mídia o debate merecido, e Ivo se vale da dança para propor outro tipo de reflexão sobre elas, mais sensível e humana, mesmo que ainda não alcance aqui uma verdadeira profundidade.  
Vê-se a construção desse pensamento desde o início, quando encontramos um mar de bailarinos deitados, inertes no chão, vestidos com malhas cor da pele. Pouco a pouco, eles acordam como de um susto e reencontram a própria capacidade de respirar.

 

Criada a partir de improvisos, a coreografia – enquanto organização de movimentos – parece ser o que menos importa em “Risco”, e é um ponto de fragilidade da obra. Por vezes os corpos parecem perdidos no espaço; em outras, eles não conseguem conferir densidade a gestos simples.
 

O resultado soa mal ensaiado – e essa não deveria ser uma questão a fazer os olhos saltarem em um trabalho dessa natureza. É uma ruptura muito drástica com o virtuosismo da obra apresentada anteriormente no programa, “Adastra”, de Cayetano Soto, que serve muito bem ao potencial técnico daquele elenco.
 

Sob música de Gustav Holst (1874-1934) e Otorino Respighi (1879-1936) e com direção cênica de Sergio Ferrara, a nova criação busca, então, atingir as sensações do espectador com as imagens que cria, seja a partir das projeções de vídeos dos bailarinos dançando em frente aos grafites paulistanos, que servem como cenário, ou da leitura dos corpos dos bailarinos como telas, já que eles vão sendo coloridos com tintas à medida que entram em contato com o arsenal de questões levantadas. Ao fim, vem o arrebatamento: eles são alçados, enquanto, no palco, a bailarina Fernanda Bueno, guiada pelo “Basquiat” de Marcos Novais, evoca a cena inicial e reencontra o ar após mergulhar em um aquário, num misto de desespero e alívio que resume a gangorra emocional com a qual a maioria dos paulistanos lida nos dias de hoje.


“Risco” deve ser compreendida a partir de seu contexto de criação, elaborada às pressas, em menos de dois meses, para celebrar com pompa a chegada do novo diretor da companhia. Ela falha na forma e na falta de densidade do que apresenta, mas causa impacto ao produzir um acontecimento com vários significados artísticos e políticos.


O título da obra, por sua vez, já revela tudo isso, comprovando a consciência de Ismael Ivo em torno do que foi levado ao público. “Risco” é deliberadamente uma aposta e uma tentativa que não teme o erro e se veste de uma coragem como há muito não se via no Balé da Cidade. O desafio agora é fazer essa bravura dialogar com o peso do passado e a identidade da própria companhia.

Fotos: Arthur Costa/Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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