O 'Risco' das apostas do Balé da Cidade

Por Henrique Rochelle

Toda troca de gestão de companhias de dança inclui riscos. Especialmente quando a nova direção chega anunciando uma mudança. Não são muitas as companhias brasileiras que experimentaram esse momento, e nenhuma delas tantas vezes quanto o Balé da Cidade de São Paulo, que, às vésperas de seus 50 anos, recebe Ismael Ivo como novo diretor. Quando anunciado, o título da obra de estreia da primeira temporada do novo diretor já mostrava a ciência desse momento delicado, perigoso e grandioso: “Risco”, que, dirigida por Sérgio Ferrara, chegou ao palco do Theatro Municipal de São Paulo em março.

 

Acabada a apresentação, terminada a temporada, e agora a meio caminho da próxima, podemos questionar quais são os riscos de “Risco”. Há aqueles riscos mais constantes, que se repetem a cada nova obra — a recepção do espetáculo, sua compreensão, sua valorização frente ao extenso repertório do BCSP; mas há outros mais específicos, tais quais: como a obra apresenta o programa de gestão do diretor, e como ela anuncia suas mudanças. Nesses parâmetros, “Risco” é uma obra que assusta um pouco.

 

A nova gestão arrisca apostando sua primeira ficha em um diretor cênico e não em um coreógrafo, e o resultado é um espetáculo que investe pesadamente no visual, e que tem a dança como um acessório quase decorativo. “Risco” engolfa o público em sequências de sedução do olhar, abrindo a cortina com luminárias suspensas sobre os bailarinos deitados pelo chão, continuando em cenas que navegam por painéis móveis e projeções criando uma cenografia em constante mudança, mas que não interage com a dança — de fato quase ausente — do espetáculo, e terminando em tintas pelos corpos, um tanque de água, e trapézios para a suspensão dos intérpretes.

 

Com tamanha parafernália, seria difícil não prender a atenção do público, e, nesse sentido, “Risco” funciona. Através do jogo de luz, de cores e de efeitos, somos todos chamados por um grito que insiste “fiquem atentos ao Balé da Cidade”. Atentos estamos, mas “Risco” soa mais como um anúncio — prelúdio do que virá — do que como um grito de guerra — convocando à ação. 

 

Enquanto novos públicos se encantam, velhos companheiros da companhia reconhecem fórmulas já bem exploradas ao longo do histórico do BCSP, e não menos no que diz respeito ao tema. A obra se propõe discutir a cidade de São Paulo, sujeito constante na companhia, aparecendo paulatinamente a cada gestão, e regularmente no repertório do Balé. O anúncio do novo diretor de seu desejo por envolver e desenvolver o aspecto criador dos bailarinos já chega, nessa primeira obra, em um extremo: não há coreógrafo, e a movimentação é resultado de um laboratório dos intérpretes. Proposta interessante, ainda que, também, não seja exatamente nova. Em outras instâncias, porém, o BCSP teve mais sucesso, contando com diretores de coreografia, para estimular e organizar essa produção coreográfica dos intérpretes. Aqui, numa situação em que todos os olhos (do público e, aparentemente, do time criativo) se voltam para o visual, a dança é acessória e se apoia em lugares-comuns da experiência dos bailarinos e do repertório da companhia, criando mais um enfeite para o palco.

 

Porém, a realização do elenco não se desmerece com esse proposta. Ainda que o material que eles dançam não seja especial, seus corpos e sua execução continuam especiais. Um dos grandes trunfos do Balé da Cidade tem sido a constância de um elenco expressivo e preciso, que ataca as mudanças e as propostas que encontra com entrega, força, qualidade e talento. Apenas tivessem um material mais consistente em dança, “Risco” poderia ter uma outra história. Aqui, a nova direção também arrisca, entregando a coreografia da nova obra para um elenco que ela ainda desconhece. Querer preparar os bailarinos para coreografarem para esse tipo de trabalho seria um projeto de substância; porem, colocá-los para criar sem nenhuma ideia do que dali sairia, e sem um plano B, e apenas um risco gratuito.

 

O retrato que a obra faz de São Paulo é um retrato contundente. Uma cidade de excessos e de faltas, com um tom de aparente violência, e, no todo, de uma grandiosidade que beira o épico — sensação que é influenciada não só pela grandiosidade cênica, mas também pela musical, com obras de Gustav Holst e Otorino Respighi executadas ao vivo pela Orquestra Sinfônica Municipal, regida por Luis Gustavo Petri — esse sim um bom casamento artístico, porém não é de risco nem novidade: a parceria do BCSP com a orquestra já havia mostrado belos resultados nas últimas temporadas. Essa grandiose combina com a situação da cidade, em embate entre a classe da dança e a gestão cultural municipal desembocando em manifestações em torno do Theatro Municipal, inclusive durante a temporada de estreia de “Risco”. A presença nas projeções de imagens de murais de grafite também conversa com a cidade, que viu mais cedo esse ano um apagamento de várias dessas formas de arte urbana, dentro de um projeto da nova gestão municipal. Graças a esses encaixes entre a proposta da criação da obra e o momento da cidade de São Paulo, entre todos os riscos de “Risco”, o que mais dá certo é o temático.

 

Ainda que seja um marco por ser a coreografia abre-alas da nova gestão, é difícil pensar em “Risco” como marco estético para o BCSP. Se tanto se tornar, então o que veremos são obras que deixam a dança em segundo plano para a instalação visual e sonora — e esse, sim, seria um triste risco para a companhia, que tem se debruçado sobre numerosos  e talentosos criadores, sem criar uma característica específica, e ao mesmo tempo identificando uma forma de se fazer dança. Essa forma já é paulistana, montada de múltiplas confluências, e caracterizada por meio século em nossos palcos. Essa forma pode se mudada, deve ser continuada e adaptada às novas mentes, aos novos corpos que integram a companhia, e aos novos momentos que vivemos. A grande questão, deixa de ser onde está o risco, e passa a ser qual o objetivo desse arriscar: onde quer chegar o Balé da Cidade de São Paulo? Grandes propostas demandam sim grandes riscos, mas aguardamos as próximas temporadas para saber quais os ganhos dessas apostas.

Fotos: Arthur Costa/Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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