SPCD encontra poética na velocidade

Por Amanda Queirós

Depois de abrir sua temporada apenas com obras de coreógrafos brasileiros, a São Paulo Companhia de Dança se dedicou a um programa inteiramente internacional.

Os quatro trabalhos em questão representam uma sequência de reencontros do elenco com movimentações perseguidas ao longo dos quase dez anos de existência do grupo.

Isso está presente tanto nas remontagens de obras do repertório, como “Suíte para Dois Pianos”, do alemão Uwe Scholz, e “Indigo Rose”, do tcheco Jirí Kylián, quanto nas duas estreias na companhia: os duos “14’20''”, também de Kylián, e “Pássaro de Fogo”, do alemão Marco Goecke.

“Suíte”, que abre a noite, é desses números concebidos para não haver nada fora do lugar. A proposta é um diálogo entre os bailarinos, os pianos de Rachmaninoff e as quatro telas de Kandinsky reproduzidas como cenário em cada cena da coreografia.

Isso faz com que o elenco emule no corpo os movimentos das pinceladas presentes atrás dele. Para reforçar essa conexão, os collants do figurino se valem apenas do mesmo branco e preto presente nos traços dos quadros, com a diferença de que os homens vestem preto nas pernas e branco no tronco, enquanto as mulheres usam o contrário.

É um contraste de positivo/negativo que sugere também complementariedade. Funciona, especialmente, no trio no qual os meninos praticamente transformam a bailarina em pincel ao elevá-la e manipulá-la de maneira inventiva, com inversões e elevações. Isso gera momentos plasticamente interessantes, produzindo grafismos que sugerem uma verdadeira unidade entre os três. É uma celebração do abstracionismo que exalta beleza, mas que também carrega certa dose de esterilidade.

Dançada sobre sapatilhas de ponta, “Suíte” é ainda um trabalho que explora fortemente a criação de movimentos em torno das linhas alongadas do clássico, algo particularmente desafiador nas cenas em que a força dos pianos exige velocidade dos bailarinos.

Essa agilidade, aliás, é algo que o elenco entrega com bastante segurança em todo o programa. As sucessivas escolhas de repertório da SPCD, com nomes como Édouard Lock, William Forsythe, Goecke e Kylián, escancaram o interesse da companhia em se firmar como veículo de grandes autores que, em comum, carregam o ataque como elemento muito presente em seu DNA coreográfico. No entanto, ela sempre teve dificuldade para entregar isso com consistência. Eis que, nessa noite, a companhia parece ter encontrado uma poética na velocidade.

Isso está materializado, de forma especial, na figura de Ana Paula Camargo. Bailarina da companhia desde a sua fundação, ela é das melhores provas de que um corpo se molda a partir do contágio e do treino e, só com isso, é capaz de superar a técnica. Presente nos elencos de todos os demais trabalhos de Kylián e Goecke dançados até hoje pela SPCD, ela carrega em si tal domínio da movimentação dos dois coreógrafos que acabou colocada na inusitada posição de protagonizar as duas estreia da noite.

Ao lado do também afiadíssimo André Grippi, ela dançou “14'20''” com a precisão exigida, algo que reforça uma certa dureza do trabalho e a forma como ele encara as relações amorosas. Ouvimos ao fundo uma voz feminina e outra masculina faladas em idiomas diferentes enquanto cada um deles performa um solo independente, como uma conversa na qual nenhum dos dois se escuta. Em dado momento, Ana despe-se da camiseta e seu figurino fica igual ao dele, com calça preta e torso nu - e é só aí, quando estão posto de igual para igual, que eles começam verdadeiramente a dialogar. Há tensão e mistério constantes na música, que se convertem também na relação que esses corpos estabelecem entre si para encenarem um rito de adeus ao amor que uma vez ali existiu.

Arrancada do chão, a faixa de linóleo com a qual ele a abraça ao fim - e da qual ela escapa sem ele perceber - torna-se símbolo potente do apego às memórias que ficam. O encerramento é ainda mais melancólico, quando ele - e logo depois ela - se deixam recobrir por linóleos diferentes. A história dos dois acabou, e o que restou foram volume disformes e dispersos enterrados sob o chão.

Este é um Kylián mais contemporâneo e, portanto, mais antenado com as últimas inquietações do artista enquanto ainda era a alma do NDT, representando um avanço para o repertório de obras dele na SPCD, até então restritas ao século passado. É um excerto de outro trabalho que se sustenta perfeitamente como duo pela intensidade e maturidade exigida pela interpretação.  

O outro Kylián da noite se caracteriza também pela agilidade, apresentada na forma de uma movimentação mais solta e fluida. Criada originalmente para o Nederlands Dans Theater 2, “Indigo Rose” é um trabalho que combina especialmente com a SPCD por representar um momento de reflexão sobre a jovialidade da própria companhia - como se vê na agitação dançada logo na abertura, ao som de Robert Ashley, ou na brincadeira com as sombras projetadas na vela -  e seu desejo de amadurecimento - em duos e quartetos que trazem à memória a aura lírica já vista em “Petite Mort”, finalizando de forma agridoce com uma projeção dos rostos dos próprios bailarinos ao som de Bach.    

Em mais uma escolha inusitada de programação, a noite fechou com um duo de Marco Goecke inspirado na lenda russa do Pássaro de Fogo. O estranhamento se dá pela curta duração da obra, algo raro para o encerramento dos trabalhos, e por ele lembrar “1420’’”, apresentado pouco antes também no formato duo e com um figurino muito semelhante.

A trilha é a mesma do balé original criada por Stravinsky para a versão de Fokine em 1910. São excertos que costumam já estar em nosso ouvido por suas referências na cultura pop, conferindo certo ar de familiaridade ao que se coloca em cena.

Quem viu “Supernova” (2010) e “Peekaboo” (2013), também presentes no repertório da SPCD, sabe que este é um coreógrafo de assinatura muito clara. Todos os três trabalhos apresentam os mesmos maneirismos: troncos inclinados, perfis afilados, pernas em paralelo e um frenesi sem dó na movimentação de braços e mãos.

O que diferencia “Pássaro de Fogo” é como ele se vale desses elementos de uma forma ainda mais minimalista e, por vezes, um tanto literal, como sugere a imagem das asas da ave a partir da vibração das mãos de Ana Paula. Esse minimalismo provoca um contraste com a grandiloquência da música, que celebra o encontro entre os personagens do pássaro e do príncipe. Executada com vigor também por Nielson Souza, esta é uma obra que gera um efeito cênico interessante, mas, posta onde está, a sensação de “é só isso?” acaba inevitável.

O resultado da noite é um programa de escolhas interessantes, apesar de um tanto fora de lugar. Seu principal mérito é o de apresentar mais substância da companhia no objetivo, traçado desde seu início, de defender um mix de coreógrafos diferentes cada vez que sobe ao palco. Às vésperas de completar dez anos de existência, a emergência dessa característica é um bom sinal.

Fotos: Wilian Aguiar e Arthur 
Wolkovier
 /Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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