Duo de Kylián é ápice do segundo programa da temporada da SPCD

Por Iara Biderman*, convidada do CRITICATIVIDADE 

O segundo programa da temporada 2017 da São Paulo Companhia de Dança é como uma abstração geométrica traçada no tempo-espaço.

Há uma continuidade gráfica/visual, em que figurinos preto e branco se deslocam para vermelho e preto, passam pelas cores misturadas por brilhos e transparências contra um jogo de sombras (outro preto e branco), e voltam ao preto e vermelho. O fim se enlaça, sem se fechar, ao começo.

Estão aqui (alguns dos) temas da primeira e a última obra do programa, “Suíte para Dois Pianos”, de Uwe Scholz, e “Pássaro de Fogo”, de Marco Goecke.

Na primeira, uma coreografia em grupo, a geometria abstrata de Wassily Kandinsky se prolonga na partitura dos movimentos que desenham a suíte para pianos de Rachmaninoff.

Na última coreografia do programa, um duo, fênix, o pássaro de fogo (tema de toda a temporada 2017), renasce das próprias cinzas, um eterno recomeço.

A trajetória do espetáculo revela também as características do grupo paulista, prestes a completar dez anos, que aparecem de forma especialmente feliz neste programa. A dança contemporânea de base neoclássica, a construção de uma companhia de repertório, a qualidade técnica, a viabilização de montagens com os grandes nomes da dança contemporânea (e da história da dança) no Brasil.

O programa começa com o neoclássico muito particular de Uwe Scholz (1958-2004). Se é um repertório de movimentos clássicos conhecidos, esse é ressignificado pela conversa (tão contemporânea) entre dança, música e artes plásticas. Os grandes painéis com desenhos de Kandinsky se multiplicam nas corpos em movimento que, por sua vez, vão desenhando as notas da música Rachmaninoff.

Pinceladas da história da arte e da cultura do século 20, a suíte de Scholz traduz bem o tema da temporada passada da SPCD, “Jogos de Linhas”. Para quem já viu, funciona como um preâmbulo, reforçando a ideia de continuidade. Para todos, é mais uma oportunidade de ver a qualidade alcançada pelos bailarinos da companhia.

A linha traçada faz então uma curva para um outro lugar, este do século 21, na densidade de emoções concentradas em menos de 15 minutos. Em números exatos: 14’20’’ é nome e o tempo de duração do trecho da coreografia de Jirí Kylián apresentada pela SPCD.

É o tempo da dança, numa dança sobre o tempo movimentando pessoas e relações. Um duo em que cada um está à procura do outro e de si mesmo, se encontrando e se perdendo.

São 14 minutos e 20 segundos de vida e morte dançadas. Sem artifícios: fundo preto, figurino minimalista preto e vermelho, torsos nus, deixam os dois bailarinos, Ana Paula Camargo e André Grippi, completamente expostos. No caso, para o bem: a dupla mergulha no olho do furacão, com brilho tanto no aspecto técnico, quanto na interpretação de um tipo de emoção sutil e, por isso mesmo, difícil de decifrar. (Aliás, a dança está aí, também, para dizer o que não podemos expressar com palavras. Obrigada, Kylián).

Mesmo assim, a criação do coreógrafo tcheco, feita originalmente para o Nederlands Dans Theater II, inclui palavras. Dois textos integram a trilha sonora, um em francês, em voz feminina, um em alemão, a voz masculina.

Não há legendas, e isso tem um lado bom. Legenda em dança é sempre complicado, porque desvia atenção do centro de tudo, os corpos em movimentos, e mesmo por alguns segundos perde-se algo, principalmente em uma obra tão densa quanto “14’20’’”.

O lado ruim, é que os textos acrescentam uma camada à obra que, para quem não entende francês e alemão, não acontece junto com a dança.

Os textos estão no programa, com tradução, mas não é a mesma coisa ler antes ou depois. Um é “A Force de” (uma força), letra de Guillaume Depardieu, ator francês morto aos 37 anos, musicada por Barbara. Outro é do Dalai Lama, em um diálogo do filme “Kundun”, de Martin Scorsese. Leiam, leiam várias vezes antes de assistir 14’20’’ em futuras temporadas. Tomara que sejam muitas. A espiral de “14’20’’” é o ápice da geometria do programa.

A segunda parte do espetáculo começa com um outro Kylián, muito diferente do anterior. “Indigo Rose”, criada para o Nederlands Dans Theater II em 1998 e remontada pela SPCD em 2015, tem uma energia jovem, tribal às vezes. É o momento colorido do programa, onde se respira a vibração jovem da jovem companhia.

Por um breve tempo (os 24 minutos de “Indigo”), parece que a figura geométrica traçada no primeiro tempo do espetáculo tomou um outro rumo. Eis que ressurge um duo, com figurino em vermelho e preto. A lembrança da vertigem de “14’20’’” é reforçada pela presença, mais uma vez, de Ana Paula Camargo, desta vez acompanhada por Nielson Souza, no “Pássaro de Fogo”, de Goecke.

A sequência do programa é um pouco inusitada: não é costume finalizar o espetáculo com um duo. A opção pela ordem de apresentação ocorreu por questões técnicas: o tempo de montagem do cenário de “Indigo” pedia um intervalo.

Mas essa “mudança da ordem”, mesmo que determinada por questões circunstanciais, teve por resultado reforçar o aspecto, digamos, “conceitual” do espetáculo: o pássaro que renasce, os corpos que retornam sob outras formas e a figura geométrica que se completa em seu vértice, o ponto em que dois caminhos se encontram.

* Iara Biderman é jornalista, colaboradora da Folha de São Paulo e autora do blog Deu Baile. Faz parte da comissão de dança da APCA desde 2016

Fotos: Wilian Aguiar e Arthur 
Wolkovier
 /Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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