Ballet Stagium disfarça crítica com ingenuidade para confrontar o público

Por Amanda Queirós

Há certa dose de escapismo em “Fon Fon!”, mais nova criação do Ballet Stagium. Inspirada pela produção cultural de um século atrás, a obra faz uma colagem de cenas que funcionam como crônicas de um cotidiano retrô tal como fazia a antiga revista satírica da qual a companhia toma emprestado o título do trabalho, da época em que ainda se usava “ph” para escrever palavras com som de “f”.

A cada quadro, surgem situações protagonizadas por figuras caricatas: a melindrosa com seu cachorro, a madame cortejada pelo affair em seu boudoir, as moças que colhem flores, o baile regado a maxixe, dança considerada escandalosa no início do século 20.

O exagero na composição dos tipos é proposital. O tom cartunesco guia a dramaturgia desde sua cena inicial e vaza em todos os aspectos do trabalho, da interpretação à concepção do figurino e da cenografia - criados integralmente em preto e branco.

 

Quando a cortina se abre, vemos um palhaço sozinho no palco. Seus sapatos e sua gravata são bidimensionais, desenhados em papel com um traço grosso, de forma artesanal, ao estilo do cartunista J. Carlos  (1884-1950). Ele também carrega um bumbo e um martelo criados no mesmo estilo. Sua missão é a de cicerone, e o veremos muitas outras vezes ao longo do espetáculo.

Quando ele “toca” o instrumento em suas mãos, ouve-se uma marcha como trilha sonora e os bailarinos surgem da coxia muitos próximos uns aos outros, quase como em procissão, avançando em uníssono com passos pequenos e esquisitos, de efeito um tanto cômico. Apesar de usarem roupas diferentes uns dos outros, não existe exatamente individualidade ali. Aquela é apenas uma massa que anda junta sem um propósito claro. É uma cena curta, mas estranhamente sedutora, que funciona quase como um “easter egg” da crítica que está por vir ao final.  

A partir daí, no entanto, o espaço é dominado pela leveza. Décio Otero repete aqui um tipo de estrutura sempre presente em suas coreografias. Cada música suscita um quadro distinto, trabalhando a ideia de personagens. Eles surgem de forma quase pueril, embalados por músicas da época homenageada.

São cenas que provocam um leve sorriso nos lábios e tornam “Fon Fon!” um espetáculo fácil de se assistir. Isso se dá pelo humor inocente que a obra carrega, a interpretação consistente dos bailarinos mesmo quando desafiados pela virtuosidade exigida por Otero e, especialmente, pelos graciosos figurinos ao estilo dos anos 1920 que sabem trabalhar diferentes composições apesar da restrição ao preto e branco.

Isso tudo faz com que o público não seja desafiado - pelo menos não de forma explícita. O que conecta o desenrolar da obra com aquele começo intrigante está em detalhes construídos em torno do palhaço-protagonista. Ele não apenas toca bumbo com um martelo, mas também troca o arco do violino por um serrote, por exemplo. O balão típico dos diálogos das histórias em quadrinhos que ele ostenta sobre a própria cabeça está vazio, sem fala alguma. Quando surge em cena, ele está, em geral, à margem de quem efetivamente conduz a ação, quase como uma estátua viva. A atenção, no entanto, fica com os demais bailarinos, em meio a saltos e piruetas.

O eterno retorno do palhaço, mesmo em posição escanteada, significa a insistência de uma mensagem: algo está fora do lugar, mas preferimos prestar atenção no que nos toca de forma mais imediata e, consequentemente, mais aprazível.

Quem opta por essa via pode enxergar os momentos finais de “Fon Fon!” com completa surpresa. Os versos de “Ô Abre Alas”, de Chiquinha Gonzaga, convocam os bailarinos a uma dança explicitamente de protesto. Enquanto o palhaço balança, ao fundo, uma bandeira do Brasil em preto e branco, os bailarinos caminham vagarosamente em direção ao público, em passadas largas e pesadas, encarando seriamente quem os encarou naqueles últimos minutos. Na trilha de fundo, repete-se incessantemente o verso “Ô Abre Alas / Que eu quero passar”.

Tal escolha dramatúrgica pode soar extemporânea, como uma quebra narrativa. Afinal, o que se viu até ali foram 40 minutos de brejeirice incessante. “Fon Fon!” puxa o tapete do público, ainda muito tradicionalmente burguês, fazendo-o reproduzir no teatro o mesmo olhar que ele carrega na vida. Somos intuitivamente instados a mirar sempre o que não nos incomoda até o momento em que manter essa ingenuidade se torna insustentável.

Acontece que, no contexto de crise generalizada no qual nos encontramos, não dá mais para não prestar atenção. A inteligência de Décio Otero nesta obra está justamente em apostar na coragem de expor tal confronto sem perder a ternura jamais.

Fotos: Arnaldo J.G. Torres / Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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