"Só que não!", uma obra-manifesto

Por Cássia Navas*, convidada do Criticatividade

“O que esta obra tem a dizer?” Esta é pergunta recorrente entre plateias de todo o mundo, muitas vezes lançada aos artistas que encarnam, à maneira da dança, questões de um tempo. “Fon Fon!”, do Ballet Stagium, última criação de Décio Otero e Marika Gidali, insere-se no centro deste diálogo, donde pulsam questões da companhia e de seus artistas.

Em “Fon Fon!”, parte-se de três marcos da moderna cultura do Brasil: a música de Chiquinha Gonzaga, a Revista Fon-Fon (de onde o título da coreografia) e a visualidade de charges + ilustrações de J. Carlos.

Através de letra-e-música e ilustrações, a dança, pela assinatura de Otero e Gidali, se desdobra numa obra-manifesto, pois, para além de “dizer”, a coreografia afirma questões de há muito tempo importantes para esta companhia de São Paulo. 

Na obra está colocado o trabalho com grupos de intérpretes que se organizam como passeatas, corsos, blocos ou filas de gente andando na rua, funcionando como cenários vivos de onde partem solistas, para dançar-contando histórias irônicas, e quase dolorosamente satíricas, como nos solos de Marcos Palmeira.   

Alinhavando estas dinâmicas, estão as paródias dum solista-mor, Fábio Villardi, comentando a dança dos grupos, a partir de uma sofisticada atuação que parte de objetos cênicos bidimensionais, inspirados nas charges e ilustrações de J. Costa.

Por este clown em branco-e-preto, inverte-se a função do coro, que comenta uma ação, como na tragédia grega. Aqui o coro é este único personagem, que nos comenta a cena, propondo trânsitos simbólicos entre um desenho e um corpo, entre uma canção e um corpo, apontando para a polissemia da dança, que trata do suporte pictórico e verbal através de corpos da dança.  

Uma polissemia que, récita após récita, abre buracos entre fisicalidades: a concretude da cena e a nossa concretude como plateia, no momento em que a percepção de ter/ser um corpo modifica-se frente a artistas a falar da posse dum corpo em arte — individual e coletivo —, no limite apontando-nos para uma pertença cidadã que devemos buscar sem tréguas. 

Em “Fon Fon!”, a comunicação em dança, escorrendo em fluxo, nos apresenta o desejo do moderno, presente num país dos primórdios do século 20. Por isto porta por nome- assim como a revista que lhe dá título- uma onomatopeia modernamente urbana, à semelhança do apito (e imagem) de locomotivas serpenteando sobre trilhos, que também foi signo duma era nova (moderna).

Ao mesmo tempo, “Fon Fon!” nos alerta para hoje, tempos nos quais o desejo do moderno nos aparece derrotado, numa frustração frente a retrocessos de muitas sortes, onde malhas duma arte humanística (e utopicamente pluridimensional) parecem soçobrar à bidimensionalidade da censura, das certezas totais, das querelas de superfície de gente cada vez mais sozinha, mas talvez bem sedenta de ritos.

A dança do Stagium, moderna como a cidade onde foi gestada, sempre nos propôs, desde há 46 anos, ritos contemporâneos a serem atualizados aqui e no futuro. 

“Fon Fon!” é buzina (e bumbo sendo percutido por martelo) a nos alertar para mais um deles: um rito que comporte a sofisticação de sátiras, paródias, ironias, inversões de sentido, em mundo que parece ser somente isto-ou-aquilo, fêmea-ou-macho, barulho-ou-silêncio, branco-ou-preto e... todos os polos opostos em que possamos pensar. Só que não!

* Pesquisadora-professora do Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena/IA/UNICAMP, é ensaísta, crítica e curadora em dança

Fotos: Arnaldo J.G. Torres / Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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